quinta-feira, 14 de abril de 2016

Moisés Caçadeira

Cena 1

Uma planície alentejana onde um homem cavalga lentamente. O vento sopra suavemente. O homem no cavalo segura uma corda que se vê esticada, presa a um outro homem que caminha a pé. Esse mesmo homem tropeça e bate com a cabeça numa pedra, ficando logo ali.

1-Ora porra!

Narrador - No Alentejo não há lei. Longe da capital, a justiça era feita pelo mais forte e sempre em seu proveito. Até que surgiu...

Cena 2

2-Moisés Caçadeira! Muito folgo eu vê-lo. Então o que é que trás o nosso amigo aqui à nossa pacata aldeia.
1-Venho à procura do Coxo.
2-Do Coxo? Qual Coxo?
1-O Coxo.
2-E como é esse Coxo?
1-É Coxo e anda com um canhão chamado Felismino. Seria um mestre do disfarce se não coxeasse.
2-Arra porra, um canhão chamado Felismino. Na deve andar muito depressa realmente. Pois, na conhecemos ninguém assim. Então e o que é que o amigo vai querer?
1-Vinho e presunto.
2-Só um momentinho que tenho que ir à arrecadação

O taberneiro vai a coxear até às traseiras, passando pela cortina de fitas. O espaço que abriu não chega a fechar, saindo do mesmo um canhão que dispara. Vê-se Moisés Caçadeira a ser cuspido para fora da taberna.

Cena 3

Moisés Caçadeira surge de rompante ao Coxo.
2-Que raio! Como é que apareceste aqui, meu grande sacana? Como conseguiste escapar do Felismino?
1-Na sou coxo. - dá-lhe com a caçadeira na cara.

Moisés Caçadeira, a lei chegou ao Alentejo!

domingo, 29 de novembro de 2015

O Homem Que Não Podia Morrer

Cena 1
Viela escura, um grupo de bandidos cerca um homem que tenta fugir mas sem ter qualquer hipótese.

1-Dá-nos a carteira, relógio.
2-Pede-lhe também a roupa!
1- Sim, dá-nos a tua roupa também.

Os bandidos apertam o cerco, rindo e obrigando o homem a encolher-se de medo. No entanto, o ruído de metal a ceder faz-se ouvir.

Narrador:
"Toda a minha vida fui perseguido, desde que era criança. Sempre senti como se tivesse um imã para os problemas. A parte estranha é que... nunca me aconteceu nada de mal"

Os bandidos olham todos para cima quando o barulho de metal a ceder cessa e o vento silva de cima. Um "O" de um lettering de neon do prédio cai em cima deles, deixando apenas como único sobrevivente a vítima que se ergue lentamente. Olha para cima e vê a palavra "HTEL" a piscar. Sobe a letra gigante e vai-se embora a correr.

Narrador:
"Normalmente não acreditam na minha história e os poucos que acreditam... dizem que sou abençoado. Algumas vezes penso que sim, outras vezes... desejava não estar sempre a passar por isto."

Cena 2
Na estrada, um camião cisterna despista-se e forma um efeito tesoura que vai na direcção do carro onde segue o homem. Este em vez de parar e sair do carro, carrega no acelerador enquanto grita.

Narrador:
"Já desejei a morte. Já tentei morrer, mas nunca consegui. Em vez disso, sempre provoquei mortes ao meu redor. Todos morrem e eu fico sozinho".

Um meteorito cai à frente do camião, criando uma cratera por onde se afunda, enquanto o carro onde o homem segue fica com os pneus furados, os quatro, e vai deslizando até ficar com a roda à beira da cratera.

Narrador:
"Só queria estar em paz. Percebe? Estar em paz."

3-Já ouvi falar de muita coisa estranha, já ouvi muitas justificações estapafúrdias, mas esta bate todos os recordes. Tudo bem, nós tratamos disso. Sem qualquer problema. Quando é que...?
Narrador - Prefiro não saber. Por favor, só peço que tenha cui...

Antes que o homem acabe a frase, o assassino puxa de uma arma e aponta-a directamente a ele. Quando puxa o gatilho, a arma explode-lhe na mão e uma das peças da arma enfia-se no seu cérebro. O homem levanta-se e sai da sala calmamente. Pega no telemóvel e liga um número.

Narrador - Já está. O que querem que faça mais?


sexta-feira, 3 de julho de 2015

Mundo em Ruínas

Cena 1 (e única):

Uma paisagem de uma planície alentejana, aparentemente sem vida, vasta, é observada pela câmara que se mantém imóvel. 

Narrador-Sempre me disseram, desde que me recordo, que vivia fechado no meu mundo. Que deveria prestar atenção ao que se passava à minha volta. Para deixar de viver no meu mundo de fantasia. Eles não se apercebiam... eles não percebiam que isso só fez com que eu mergulhasse mais e mais nesse mesmo mundo.

Ao fundo, começa-se a ver uma nuvem de pó a formar-se.

Esse mundo onde eu encontrava os meus verdadeiros amigos, onde nada de mal poderia acontecer. E eles, talvez por incompreensão ou inveja, não sei, tentaram destruir esse mundo, esse mundo onde eu conseguia proteger tudo e todos. Eles não conseguiam ver, não conseguiam compreender. E tal como qualquer bom humano, o que não se consegue perceber, é para destruir.

A nuvem de pó começa a aumentar cada vez mais que se aproxima do ecrã.

Então eles atacaram o meu mundo, numa tentativa vã de me resgatar. Acreditando que destruindo o que não compreendiam seria a única forma de me terem da forma que desejavam. Mas era tarde demais. Eu não ia voltar. E eu não vou. Vou defender este mundo até às últimas consequências, até ao último suspiro.

À frente da nuvem em pó distingue-se uma figura humana, a voar a alta velocidade e percebe-se, apenas em segundos, que a nuvem é causada por ela. A nuvem engolfa todo o ecrã, sentindo-se os grãos de areia, pedaços de terra e árvores a bater contra a câmara.

terça-feira, 24 de fevereiro de 2015

Liberdade

Cena 1 – câmara a focar a nuca de um homem

1-Sinto-me preso, sabem? Em alturas do 25 de Abril fala-se de liberdade à boca cheia mas cada vez esse conceito me soa mais estranho. Liberdade, o que é isso? É votar? É poder falar? Ou serão essas pequenas definições de liberdade, aquelas usadas para nos cegar quando nos querem presos. Eu olho para todos vocês e apetece-me gritar aos vossos ouvidos, gritar até perder a voz, gritar até que acordem. Mas não é dessa forma que vocês acordam, vocês que vivem nos vossos mundos de plástico, que compram as ilusões das vidas dos outros, na esperança de se tornarem nas vossas ilusões.

A câmara começa a afastar-se

1-Não é assim que alguém que está cego começa a ver, até porque quando a luz vos bater nos olhos, vocês vão fugir, porque não estão habituados. O que conhecem é a escuridão, como vão querer encarar a luz que os cega, mesmo que seja momentaneamente. Sei que não vos interessa nada disto que vos estou a dizer, sei que amanhã vai continuar tudo na mesma, sei que apenas vão encontrar alguém para ocupar o meu lugar. Não me interessa… sinceramente, não quero saber o que vos vai acontecer, não quero perder tempo com alguém que não reconhece sequer a minha existência ou dá valor ao que som. Não adianta perder energia e com vocês estou farto de perder energia. Tal como todos, pensei que a liberdade era um dado adquirido, mas hoje, é-me mais claro que nunca que a liberdade é algo que deve ser conquistada, porque podemos falar, podemos votar, mas se nos mantivermos em cubículos, agarrados ao telefone 40 horas por semana, a nossa liberdade existe apenas para pagar empréstimos e impostos. Hoje eu vou ser livre. Aqui está a minha carta de demissão.

O homem vai-se embora e a câmara foca-se numa mesa comprida, com uma série de executivos a olhar uns para os outros, até que recomeçam a falar como se nada se tivesse passado.

quarta-feira, 10 de dezembro de 2014

Alma

Cena 1: Estúdio de gravação de música às escuras, onde se distingue apenas uma ténue figura na escuridão imersa nos seus pensamentos, quando é interrompida por uma presença:

1-Ainda não mudei de ideias, caso te estejas a interrogar.
2-Estava com essa esperança, confesso.
1-Não... continuo decidido a ir-me embora.
2-Peço-te, por favor... pensa melhor naquilo que estás a fazer, estás a deixar tudo para trás, toda uma vida, tudo o que construíste. Eu sei que a morte da Teresa te abalou...
1-Tudo o que tinha de mais valioso já perdi, não há mais nada pela qual valha a pena ficar.

Cena 2: O homem está sentado num bar, agarrado ao copo e enquanto está agarrado nele, as pessoas passam à sua volta numa velocidade vertiginosa, enquanto ele se mantém parado no tempo, parado numa combinação de desgosto com auto-compaixão. Até que o tempo volta a andar novamente e há algo que o desperta do coma auto-infligido em que está mergulhado. O som de uma guitarra. Todo o bar silencia e apenas a guitarra fala.

Cena 3: Exterior do bar.
1-Quem é aquela jovem que estava a tocar?
3-É a sobrinha do senhor Rodrigues, o dono do bar. Mas vai com cuidado...

Cena 4:
4-Não estou interessado.
1-Ainda não lhe perguntei nada.
4-Seja o que for que vai perguntar, não estou interessado.

Cena 5:
4-Vá-se embora
1-Ainda não lhe disse o que queria dizer.
4-Ainda não estou interessado.
1-E a sua filha? Será que está interessada ou será que essa sua protecção a vai impedir de viver os seus sonhos?
4-O que é que você sabe dos sonhos da minha filha?
1-Sei o suficiente apenas por ver os olhos dela a brilhar e o sorriso que se forma no seu rosto cada vez que ela está a tocar.
4-A última vez que apareceu alguém como o senhor, cheio de boas intenções em relação ao talento dela, a desilusão foi tão grande que ela quase desistiu de tocar. Tão grande que não havia nada que apagasse a tristeza do seu olhar. Não a vou fazer passar pelo mesmo.

Cena 3:
3-A música é o seu refúgio e a miúda é o refúgio do Rodrigues.

Cena 6:
1-Sei que já foste magoada e sei que não o queres ser outra vez. Olhar para ti é lembrar-me da razão pela qual estou aqui. Estou aqui por estava farto de estar num mundo onde o talento é sugado por sanguessugas, farto de participar nisso, como mais uma ferramenta. Não é isso que quero. Fugi desse mundo, fugi da música porque achava que não tinha mais nada para me oferecer até te ouvir a ti. Não vou pedir nada de ti que não queiras fazer, só vou pedir que sejas quem tu és. E o que tu és, está ligado, preso a essa guitarra que tens na mão.

Cena 7:
4-Avisei que isto ia acontecer e eu devia matar-te por causa disso, mas a culpa não é tua, é minha! Fizeste-me passar por idiota e magoaste-a, a única coisa que pedi para não o fazeres
1-Espera, percebeste tudo mal! A decisão é tua e dela, aquilo que eles disseram foi distorcido e não foi dirigido a vocês e sim a mim.

Voz por cima de uma série de imagens de uma banda a tocar
"Quando cheguei a um momento da minha vida e vi que tinha desperdiçado tudo, que tinha feito todas as escolhas erradas, culpei a música, culpei aqueles que pensava serem meus amigos, culpei todos menos a mim próprio, a minha ignorância e a minha ganância.Vendi aquilo que tinha de mais valor mas foi preciso encontrar-te para perceber que a música é a minha alma e que ela é imortal"


domingo, 28 de setembro de 2014

Corpos

Cena 1 – Hospital

-Eu estou com medo, doutor e não me diga que é ansiedade pelo meu marido ter voltado para casa.
-Se acha que não é ansiedade, qual a razão do seu medo?
-O meu marido… eu não o reconheço mais. Não foi o homem com quem casei.

Cena 2 – Um homem deitado na cama do hospital, com o quarto vazio com excepção de um outro homem a observá-lo.

“Não somos mais que habitantes em casas que julgamos ser nossas. Por vezes… quando o habitante está ausente, a casa… pode mudar de dono”

Cena 1 - Hospital

-Susana, é natural que depois de uma experiência terrível como aquela que a sua família atravessou que existam…
-Não doutor, não é isso. Inicialmente pensei que fosse isso, mas não se trata disso. O meu marido… não é a mesma pessoa. Não fala da mesma forma. Não tem os mesmos hábitos. E ele passa os dias a ver filmes antigos, a pesquisar na internet, não responde quando lhe pergunto o que se trata… Ele… assusta-me. O seu olhar, o seu simples olhar assusta-me.

Cena 2  – O homem que se encontra erguido aproxima-se e funde-se ao que está deitado na cama.

“Por vezes dormimos acordados, por vezes não valorizamos o que temos até que de uma outra perspectiva, passamos a valorizá-lo”

Cena 1 – Hospital

- Falo com ele e o seu olhar atravessa-me, como se não estivesse ali. Não sei o que fazer mais… tenho vontade de fugir.
- Depois de despertar de coma, é normal que exista algumas diferenças no comportamento, que exista alguma dificuldade no voltar à vida quotidiana. Deixe passar algum tempo. De qualquer forma, vou pedir para que ele venha cá para a semana que vem e depois poderemos avaliar a sua evolução.

Cena 2 – O homem que está deitado na cama levanta-se, mas o seu espírito fica deitado na mesma cama.

“Quando acordarmos... e damos conta que é tarde demais, que estamos longe de casa... não temos outra alternativa senão procurar o caminho de volta. O meu corpo é o meu templo, a minha casa. Este é o meu caminho para casa.”

O espírito levanta-se da cama.

quinta-feira, 29 de maio de 2014

Incubo

Cena 1

Escuro, respiração pesada, bater do coração, passos vagarosos
- Sinto uma presença constante. Assim que fecho os olhos, sinto que não estou sozinha em casa.

Cena 2
Conversa entre duas pessoas, uma delas médico
- Não será algo que resulta de estares sozinha agora que te separaste?
- Não, não é isso. Antes de separar-me já passava por isto. Falei com o Pedro mas ele não acreditou em mim. Aliás, foi uma das razões que levou à nossa separação, eu sentir-me sozinha em muitos aspectos da minha vida.
- Ok… e não será sentires-te sozinha, independentemente de estares ou não, que originou tu sentires isso?
- Não sei… é real demais para ser coisas da minha cabeça (não deixando o amigo interromper) eu sei o que vais dizer, mas eu sei o que sinto. Peço-te que confies em mim.

Cena 1

Negro, respiração profunda e o bater de coração acentuado.

Pensei que fosse da minha casa, mas já senti noutros sítios. Aquele respirar que parece que chama por mim…

Cena 2
- Sendo só isso, não será algo que consigas ultrapassar com um comprimido para dormir ou assim.
- Não é só isso… (a mulher abre um botão da camisa revelando as nódoas negras no peito).

Cena 1

Do escuro, começa-se a ver a luz a vir do interior de um quarto que tem a porta fechada. A batida de coração aumenta. A luz apaga-se.

Os ataques começaram na semana a seguir à separação e estão a ser cada vez mais frequentes. Tenho medo de dormir, tenho medo de ficar sozinha. Não sei o que mais fazer. Tenho medo daquilo que ele possa fazer

Cena 2

- Ele?
- Sim… ele. Eu sei que é um homem, o seu fedor por vezes parece que fica entranhado na minha pele, sinto-me suja e por mais que me lave não consigo com que este cheiro e esta sensação desapareça.

Cena 1

Na escuridão, a pulsação aumenta, a respiração torna-se ainda mais pesada até que tudo pára. Ouve-se o barulho de uma porta a abrir, lentamente. A luz acende-se e grita. A porta fecha-se bruscamente e fica escuro novamente.


sábado, 15 de fevereiro de 2014

Portal

(Voz Narrador, imagem em negro, com um ponto de luz a expandir-se)

Imaginem um buraco. Um buraco no tempo. No espaço. Na realidade. Que realidade? A minha realidade.

A minha vida era simples, acordava, levantava-me, ia trabalhar, comia, voltava para casa, comia e ia para a cama onde tentava dormir. Tentava porque no dia seguinte acordava sempre um pouco mais cansado do que no dia anterior. A rotina fazia com que me mantivesse dormente e adormecido durante o dia. Não precisava de mais nada. As coisas eram feitas sem pensar. Um dia, um dia tudo mudou, quando o buraco de luz na escuridão se tornou tão grande que não conseguia fechar os olhos, mas quando os abria, a escuridão voltava.

Como podia eu estar a dormir com os olhos abertos e acordado com eles fechados?

Uma noite a luz era forte demais e com os olhos fechados levantei-me e fiquei de caras com a luz, redonda, do meu tamanho, como a entrada de um cano grande. Num impulso talvez motivado pela dormência da minha vida real ou por achar que era apenas um sonho, dei um passo em frente.

(O buraco de luz fecha-se rapidamente)

E aí... tudo mudou.

segunda-feira, 28 de outubro de 2013

Fix You

Um homem a correr atrás de um autocarro, apanhando-o por pouco. O mesmo homem, momentos depois, a perder o comboio, num dia de chuva. O mesmo homem a chegar ao trabalho, e antes que tenha tempo para se sentar, o patrão chama-o para gritar com ele.

Numa conversa com um colega:
- Estou farto disto! Se não fossem as contas, despedia-me e pronto!
- E o que é que irias fazer?
- Não sei, mas não ia fazer mais isto!

A conversa neste ponto é sobreposta por imagens de um acidente de automóvel, de uma mulher perde o controle do carro, as imagens passam-se lentamente.
- Porque é que não pegas na Patrícia e não vão os dois para algum lado?
- É... talvez faça isso, sim.
A sucessão de imagens termina com um embate violento.

2ª Cena
O mesmo homem, sujo, a vasculhar por comida nos contentores do lixo. A ser agredido por jovens. A chorar de dor perante os céus, chuva que o fazem lembrar daquele dia.

Até que um dia, a mulher que ele tinha chorado no funeral passa à sua frente, enquanto ele estava deitado no chão. A mulher sorri e desaparece na esquina. O homem corre, mas apenas encontra um prédio abandonado.

3ª Cena
- Hey! O que é que estás a fazer aí?! - grita um outro desalojado, à porta do prédio abandonado.
- Nada. Só arranjar as coisas.
- A arranjar coisas?
- Sim. A arranjar coisas.
- Não há nada para arranjar! Isso foi tudo roubado!
- Há sempre algo para arranjar...
O desalojado resmunga e vira costas.

O homem vai arranjando material no lixo, coisas que foram deitadas fora e aos poucos as pessoas começam a notar. Um grupo de crianças está à porta a ver até que o homem lhes pede ajuda para segurar algo. Na cena seguinte, as crianças também estão a contribuir activamente. Na imagem seguinte, uma série de pessoas também o ajudam.

4ª Cena
- É loucura! Esta casa não te pertence! O que é que estás aqui a fazer? O teu lugar não é aqui com estes vagabundos!
- Eles não me rejeitaram.
- Ninguém te rejeitou!
- Não, vocês apenas não tinham paciência para me ouvirem lamentar a morte da minha mulher. E talvez tivessem razão, talvez eu tenha lamentado tempo demais mas pelo menos aqui, aqui encontrei um propósito.
- Propósito! Tu vieste aqui parar porque viste a Patrícia a passar por ti! Não foi um sinal divino, foi alucinação! Tu precisas de ajuda.
- Agora já não preciso.

5ª Cena
- Se não saírem daí a bem, a polícia vai entrar e tirar-vos à força. - diz o funcionário da câmara com um megafone.
Os desalojados saem todos unidos pelas mãos e colocam-se à frente da polícia.

Imagens de risos, de lágrimas, e do sol a brilhar entre as sombras dos desalojados a dançar à frente do prédio.

De volta à 3ª cena.
- Há sempre algo para arranjar... talvez um dia consiga arranjar aquilo que não tem remédio. - murmura o homem
A sombra da mulher surge por trás dele.
- Não há nada que não possa ser arranjado.

O homem sorri e a sombra desaparece.

Ao som de 

terça-feira, 7 de maio de 2013

Humano

Quando os mundos caiem... quem fica para recolher os destroços?

(Imagens de arranha-céus a ruirem, monumentos a implodirem e a serem engolidos pela terra, a água a invadir a terra)

Todas as trivialidades, todos os modos de vidas passadas, largados para trás como roupas velhas e usadas.

(Presidiários a ajudarem na retirada de sobreviventes, lado a lado com polícias. Todas as raças e credos, juntos, verdadeiramente juntos pela primeira vez)

Quando um ser humano se apercebe que parte de si ser o criador de um novo mundo...

(Um homem está deitado numa cama, preso, a tentar libertar-se. Grita de desespero, mas ninguém vem ao seu auxílio).

...é quando se apercebe que tem de destruir o velho.

(As correias que o prendem, soltam-se e o homem agarra-se à cabeça gritando de dor. Os seus gritos são cada vez mais fortes até serem a única coisa quer persistem depois do ecrã ficar negro. Os gritos cessam e uns olhos brancos brilham no escuro)

terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

Para Sempre Pt1


Paris 1756

Cena 1

Teatro, casa cheia, opulência, luxo. Um homem bem colocado na sociedade fala com os seus pares, enquanto a sua jovem mulher sente-se aborrecida por sentir que não pertence aquele mundo. Ela apenas quer sentir. Algo que já sentiu em tempos, algo que se tornou apenas uma breve lembrança, distante demais para que a consiga agarrar. Até que o seu olhar se cruza com o dele e uma eternidade passou-se num simples momento. O homem olha para ela de forma sedutora, de uma forma que ela não consegue fugir. Toda a sala parece desaparecer e apenas ficam os dois, sós, longe de tudo. A voz do seu marido faz com que tudo volte.
- Vamos?
A mulher vai, mas olha para trás à procura do homem, não o encontrando.

Cena 2

Conversa com uma amiga:
- Não sei o que pensar, não sei o que fazer, não consigo deixar de pensar naquele homem. Por vezes vejo-o na rua, quando estou com o meu marido, mas volto o olhar e não deixo de me sentir culpada. Como posso ter eu estes pensamentos, com o meu marido ao lado? Meu Deus, nem posso sequer pensar nisso.
- Tu estás apaixonada.
- Não! Não, não quero pensar nisso, não posso pensar nisso.
- Não queres, não podes… mas a realidade é essa.

Cena 3

Os dois encontram-se, finalmente, à beira do rio Sena e desta vez o seu marido não está ao seu lado. Ela tenta fugir, mas há algo mais forte que faz com que ela se mantenha ali. Algo mais forte que faz com ela se deixe manter naquele lugar, contra tudo o que considera certo, naquele lugar que sabe que a vai levar ao momento que tem vivido nos seus sonhos e também nos seus pesadelos.

Cena 4

- Querida, estamos no salão.
A voz do marido intrigou-a e quando chega ao salão, encontra o marido junto com o homem dos seus sonhos. Duas realidades juntas numa só, duas realidades que ela tudo fez para manter separadas. O momento é demasiado forte para ela, desmaiando.

Cena 5

- Vamos jantar à casa dos Beauvoir.
- Não me sinto bem. Vai sem mim.
- Realmente não tens andado bem desde o desmaio, querida, mas eu já disse que íamos. Não quero ser descortês em dizer o contrário, sabes que não fica bem.
Ela já habituada a que os seus sentimentos não entrassem na sua equação e interiormente chora por ir conhecer a mulher do seu amante, outra realidade para a qual ela não está preparada.

Cena 6

Os dois corpos na cama, envoltos em luxúria e paixão, subitamente interrompidos pela presença do marido dela, que os fica a olhar por breves instantes antes dela, saltar da cama e tentar tapar-se. Ela começa imediatamente a chorar, embora esteja confusa, não sabendo se chora pela perda do marido, se chora pela perda da sua posição social. Por aquilo que as pessoas dirão dela. A porta fecha-se com violência e tudo fica negro, ficando apenas o choro da mulher a ecoar.

Cena 7

Uma sucessão de imagens da mulher e o homem surgem no ecrã. Imagens de paixão, de desespero. Um tiro é disparado, gritos. E silêncio. E negro novamente.

- Vais ficar comigo para sempre? – pergunta o homem à mulher no dia do seu casamento, em flashback.
- Para sempre.

segunda-feira, 22 de outubro de 2012

Encontro

Um jovem que não consegue ultrapassar um desgosto amoroso.

- Não adianta, não há ninguém como ela. Já estou farto de procurar e não encontro ninguém que chegue aos seus pés

Um amigo que faz tudo para com que ele avance.

- Se deixasses de ficar todo o dia sentado no sofá, com a cabeça enfiada no rabo, talvez encontrasses alguém.
- Eu apenas gosto de ver televisão deitado no sofá. De vez em quando mudo de posição para não enjoar.
- Meu, tu andas com esses boxers à quinze dias. Se colocas a cara onde meteste o cu, então, para mim andas com a cabeça enfiada no rabo.

Uma jovem que quer ultrapassar rápido a última relação que teve.

- Eu vou sair e vou atirar ao primeiro gajo que olhar para mim!

Uma amiga que faz tudo para com que ela pare.

- Tu já fizeste isso tantas vezes e ele sempre cagou para ti.
- Talvez não tenha ido ainda longe demais.
- Tu tiveste sexo na cama dele.
- Sim.
- No dia do seu aniversário.
- Sim.
- Para o qual não foste convidada
- Sim.
- E só conseguiste entrar porque seduziste o pai dele.
- Sim.
- Que foi com quem tiveste sexo na cama dele.
- Sim, e então? Ele desprezou-me.
- É o que eu te estou a tentar dizer...

Uma ideia.
(ecrã dividido em dois)

- Que tal tu conheceres uma amiga da minha namorada?
- Que tal tu conheceres um amigo do meu namorado?

- Que tal é ela?
- Que tal é ele?

- Simpática (imagem da jovem a atirar pedras da calçada à casa do ex-namorado). Firme... nas suas posições.
- É vistoso. (imagem do jovem a coçar o escroto e a arrotar). Muito caseiro, gosta de estar em casa

- Hum... deve ser feia.
- Hum... deve ser estúpido.

Jantar de apresentação

- Que se passa com a cara dela? Parece que está de trombas e com vontade de me ir à tromba. - comenta o jovem com o amigo.
- Que se passa com o cabelo dele? Parece que se enganou no frasco do champoo e trocou-o por óleo refinado. - comenta a jovem com a amiga.

(imagem do jantar em que os dois estão a discutir)

- Sabes qual é o teu problema? Estás habituada a que o mundo venha quando tu estalas os dedos. Mas o mundo não gira à tua volta. Os homens não têm que estar presentes apenas porque tens um capricho, ou porque precisas de companhia ou de sexo!
- Estás a chamar-me de vaca, meu grandessíssimo filho de uma...
- Senhora, tenho que pedir que baixe o tom de voz... - diz o empregado do restaurante embaraçado, olhando para os vários clientes.
A jovem ignora-o e diz para o jovem, com o casal de amigos no meio, olhando para os pratos.
- Sabes qual é o teu problema? Vives num mundo de fantasia, onde achas que virá uma mulher com asas e que ela irá aceitar-te como tu és, mas deixa-me dizer-te, nenhuma mulher te pode aceitar como és, não pelo menos enquanto não tomares um banho!

(imagem de pratos a voar de um lado para o outro)

- Isto se calhar não foi boa ideia...

Até que...

- Desculpa. - o amigo dá uma cotovelada no jovem que continua a falar - Eu não devia ter dito aquelas coisas.
- Pois não! - a amiga dá uma cotovelada na jovem - Eu... - outra cotovelada - Eu também não devia ter dito o que disse. Desculpa.

... do sítio mais improvável, sai a mais forte das amizades...

Ele com ela:
- Eu só queria encontrar uma mulher que me visse como eu realmente sou, sabes? Como ela fez antes. Eu não tive que me esforçar. Apenas aconteceu. Foi aquilo, perfeito.
- Se fosse perfeito, estarias com ela. E sabes, por vezes, temos que nos esforçar, não para agradar os outros. Por ti.

Ela com ele:
- Depois de tudo o que fiz por ele, como é que ele pôde avançar em frente como se eu não existisse? Como pôde ele ignorar-me desta forma?
- Porquê gastar tanto tempo a querer chamar a atenção de alguém que não te dá atenção nenhuma? Porque dar tanta atenção a essa raiva, alimentá-la, quando o que ela faz é apenas deixar-te infeliz. Lembras-te... do que é ser feliz?

... que eles nunca julgariam encontrar.

- Estarei sempre aqui para ti, para te lavar as lágrimas, daqueles que as fizeram verter.
- E eu para ti. Esperar contigo que apareça aquela mulher especial por quem procuras.

Tudo o que eles julgavam que precisavam de encontrar noutra pessoa, descobriram neles próprios, através da pessoa que mais repulsa julgavam lhe causar, quando afinal era exactamente a pessoa que precisavam de conhecer.


domingo, 15 de julho de 2012

Aparências


Eles pareciam o casal perfeito, aos olhos de todos.

Cena 1 – Restaurante
- Como te invejo… gostava de ter aquilo que tu tens. Um marido perfeito, o trabalho perfeito.
A mulher ri timidamente, mas o olhar revela alguma tristeza.

Cena 2 – Casa
- Querida, cheguei. Querida?
- Na cozinha.
- Desculpa o atraso, tive uma…hã…emergência no escritório.
- A emergência impediu-te de ligares o telemóvel ou de me avisares para que eu não estivesse aqui mais de três à tua espera?
- Querida, desculpa, eu perdi a noção do tempo…
A mulher levanta-se e sai da cozinha com as lágrimas a quererem cair.

Cena 1 – Restaurante
- Sinto-me só, sabes? Dizes que tenho uma vida perfeita, mas a minha vida perfeita está a deixar-me cada vez mais triste. É isto? É isto que é suposto ser a minha vida? Infelicidade, tristeza, solidão, incompreensão? Se eu não fosse tão cobarde, eu avançaria, eu fugiria. Iria embora sem olhar para trás. Mas eu não sou corajosa.
A amiga volta da casa de banho
-Estavas a falar com quem?
- Hã? – a mulher é surpreendida – Ninguém, apenas a pensar alto.

Cena 2 – Casa
- Não estejas assim…
- Vou-me embora.
- Como assim, vais-te embora? Como é que te vais sustentar? Quem vai pagar os teus jantares com as tuas amigas? As tuas idas às compras, todo o estilo de vida que tens, como é que o vais manter?
- Eu não pedi nada disto, nada disto tem importância para mim! Lembras-te quando começámos? Os sonhos que tínhamos? O que é que aconteceu? O que é que nos aconteceu? Antes não dava-mos importância a nada destas… coisas!

Cena 3 – Autocarro
A mulher chora com a cabeça encostada ao vidro do autocarro.

Cena 1 – Casa
- Mudámos. – o homem aproxima-se da mulher.
- Não. Se calhar sempre fomos assim. A culpa é minha, acreditei que ia deixar de me sentir assim mas apenas adiei. Fui adiando, ignorando o facto de que me sentia só, de que não me sinto apreciada, de que não me sinto amada. Deixei-me acomodar. De que iria passar
- E vai passar.
- Não, não vai. Não consigo ignorar, não mais.
- O que é que as pessoas vão dizer?
- O que elas quiserem.

A porta bate

segunda-feira, 16 de abril de 2012

Mãe

Cena 1 - Ecrâ negro.

1-Não vejo nada.
2-Habitua-te à escuridão.
1-Tenho medo.
2-Não tenhas, irei estar sempre aqui.
1-Mas...
2-Confias em mim, filha?
1-Sim.

Cena 2 - A escuridão é interrompida por uma luz intermitente, como que uma lâmpada prestes a fundir-se.

3-Socorro. Alguém me ajude!!
4-Tirem-me daqui!
5-Socorro!
(As vozes sobrepõem-se, cada vez mais desesperadas até terminar num lancinante grito)

A luz apaga-se

1-Mãe?

quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

O Aviso

Cena 1 (Câmara nos olhos do narrador)
Não me recordo da última vez que dormi uma noite completa. Não me recordo da última vez que dormi sequer. Apenas o medo. O medo de a ver novamente.

Cena 2
Uma mulher vestida de branco, brilhando no escuro, caminha em direcção à câmara.

Cena 1
Apenas sinto que há algo que tenho de me lembrar. Mas não sei o quê. A cada vez que fecho os olhos, ela surge. Tanta dor, tanto desespero. Ela grita mas eu não consigo ouvir nada.

Cena 2
A mulher começa a correr na direcção da câmara, abrindo a sua boca mas não se ouve nenhum som, apenas um ligeiro assobio.

Cena 1
Só quero que ela pare. Que me deixe em paz. Eu não quero saber o que vai acontecer, não quero saber se vou morrer. Só quero que ela...

Cena 2
Os pés da mulher deixam de tocar no chão e ela lança-se em voo até a câmara, ficando o ecrã cada vez mais branco luminoso, até ficar coberto por completo.

Cena 1
...pare.

sexta-feira, 28 de outubro de 2011

Sentir


Cena 1
[Diálogo sem imagem]
- Nunca me senti assim antes.
- Aposto que dizes isso a todas as raparigas que acabas de conhecer.
- Sim, mas acho que agora foi a primeira vez que realmente senti.
[A imagem de um jovem casal apaixonado, deitado debaixo de uma árvore começa a surgir do negro]
- Então e o que é que fazemos a partir daqui?
- Acho que teremos que ficar obrigatoriamente o resto da vida juntos.
- Curioso, estava mesmo a pensar numa pergunta para te fazer, a propósito disso…
- Qual é a pergunta?
- Se estavas livre nos próximos cinquenta e sete anos…
- Acho que posso arranjar algo na minha agenda…
[O jovem casal beija-se apaixonado e a imagem começa a desvanescer-se}

Cena 2
[A jovem rapariga está a descer as escadas de uma estação de comboios quando um encapuzado passa por ela, fazendo com que caísse das escadas. A imagem fica focada nela deitada no chão, passando depois para a imagem no hospital onde o médico fala com a família]
- Doutor, explique-nos… não conseguimos perceber o que ela tem… Ela está acordada mas não diz nada, não reage…
- Pondo por palavras simples, ela perdeu toda a sensibilidade do seu corpo. Será algo temporário, no entanto, podem haver algumas mudanças no seu comportamento.
- Porquê…? Se é algo passageiro, que alterações podem…
- O traumatismo na cabeça afectou a amígdala e o córtex, que através do tálamo, permitem com que as emoções existam. Precisam de ter muita paciência com ela, porque o acidente resultou num renascimento. Ela vai ter que aprender a sentir novamente. Ela vai ter que o querer fazer.

Cena 3
[De volta à mesma árvore do início, os dois estão sentados lado a lado]
- Não te faz lembrar nada?
- A minha memória não foi afectada.
- Por vezes sinto que ages como se não me conhecesses. Como se eu não existisse.
- Eu… apenas não sei… como agir. Eu não sei.

Cena 4
[Numa conversa entre a mãe da rapariga e o rapaz, estando a rapariga a ouvir atrás da porta]
- Eu desisto! Não consigo suportar mais isto. Não consigo estar com ela e sentir-me sempre a mais.
- Tens que ter calma… sabes que ela não está a passar por um período fácil…
- E eu?! Eu deixei tudo para trás por ela e nem sequer lhe posso tocar sem sentir que estou a tocar num cubo de gelo. Vazio é só o que ela me diz, nas suas palavras, nos seus gestos, nas suas expressões. Apenas vazio.

Cena 4
[A rapariga escreve uma carta onde se podem ler as palavras “… desculpa, não consigo fazer mais, não consigo sentir. Não consigo sentir nada, nem dor, nem tristeza. Acho que o melhor que tenho a fazer é partir]

Cena 5
[Sucessão de imagens onde se vê a rapariga a caminhar à beira da estrada, a saltar para um riacho, numa tenda sozinha, a falar com um casal hippie numa praia à noite ao pé de uma fogueira a finalizar com a cara do rapaz que sorri para ela e sorri ainda mais quando ela lhe retribui o sorriso. O sorriso dele desvanece-se quando vê algo na sua direcção, gritando o seu nome, grito que fica a ecoar]

Cena 4
“Talvez depois de eu partir, seja mais fácil para todos… sentir.”


terça-feira, 12 de julho de 2011

Brave New World

1ª Cena – Amanhecer



Um dia… um dia iremos ser tudo. Tudo o que quisermos ser.



2ª Cena – Sucessão de imagens. Um casal a beijar-se, em cumplicidade, crianças a correr, amigos a abraçarem-se e a sorrirem.



Um dia conseguiremos deixar para trás a nossa vida, as nossas dores, as nossas mágoas e tristezas.



3ª Cena – Uma cidade em chamas, pessoas a fugir, com os prédios a ruir. O mesmo casal luta pela vida, passando uma sucessão de imagens dessa luta pela sobrevivência, finalizando numa em que estão os dois no cume a assistir ao mundo em convulsão abaixo de si.



Um dia iremos ter um mundo novo à nossa espera.

terça-feira, 19 de abril de 2011

O Mal Interior

Cena 1:
[Rapariga sentada num sofá, olha fixamente para a pessoa que está à sua frente]
- Eu sou uma boa pessoa?

Cena intercalar
[Casa vazia e vê-se um vulto ao fundo de um corredor]

Cena 1:
[A mulher que está em frente à rapariga pergunta com ar confuso]
- Como assim?
- Se achas que eu seria capaz de fazer mal... intencionalmente a outras pessoas?


Cena intercalar
[A sombra começa a crescer e a ocupar a totalidade das divisões conforme avança]

Cena 1:
[A mulher responde convicta]
- Não, não. Tu não.
- E se eu...




Cena intercalar
[A sombra está a avançar cada vez mais e o negro espalha-se por todos os cantos, sendo cada vez mais difícil distinguir as mobílias.]

Cena 1:
- E se eu não controlar os meus pensamentos? E se os meus pensamentos puderem matar...?

Cena intercalar
[A luz interior desaparece por completo e apenas o negro fica].

segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

Na Escuridão

[Narrador] - Cada vez que acordo, tudo desaparece. Acordo mas não sei se acordo vivo ou se acordo morto. Apenas aquela luz que me cega os olhos. Não sei se estou vivo ou morto. Apenas quero que aquela luz desapareça.

1ª Cena
- Há quanto tempo ele está assim?
- Desde ontem. Desde que... aquilo aconteceu.

[Narrador] - Ouço vozes mas não as consigo compreender. Vejo vultos mas não os consigo identificar. Apenas queria que eles se fossem embora. Que eles fossem todos embora... com a luz. E me deixassem na escuridão. Apenas eu, na escuridão.

terça-feira, 30 de novembro de 2010

Abismo Sem Fim

1ª Cena
- Senhores, como devem saber, o passo que estamos prestes a dar é o início de um caminho sem retorno. Todos temos razões para estarmos aqui. Peço que as revejam antes de iniciarmos. Agora é a última oportunidade que têm para desistirem.

2ª Cena
- Bom dia a todos. Se me puderem dar cinco minutos de atenção.
[Burburinho infindável, interrompido por um disparo estridente de uma arma de fogo, que mergulha a sala num silêncio profundo]
- Agora que tenho a vossa atenção... Se tentarem sair, serão mortos.Se tentarem comunicar com o exterior, serão mortos. Se tentarem de alguma forma nos atrapalhar, garanto-vos, que não hesitaremos.

3ª Cena
- Um assalto num tribunal? Mas o que é que eles querem roubar?

2ª Cena
- Não vos queremos tirar o dinheiro, não queremos nada de vocês. Nada. Apenas que cumpram o vosso papel de testemunhas.

3ª Cena
- Um julgamento?! E a polícia no edifício?
- Ainda não percebemos se foi subjugada ou se participa também no golpe.

4ª Cena
- Imploro-te... por favor, não o faças... por mim.
- Estou a fazê-lo por ti também.

5ª Cena
- Eles vão matar-te. Vão matar-vos a todos, não conseguem perceber isso?!
- Nós já estamos mortos há três anos. Nada mais interessa.
- Eu não acredito nisto! Não é mais fácil matarem-se já?!
- Não antes de fazermos justiça.

1ª Cena
- Há três anos atrás, a justiça foi-nos roubada, depois da nossa vida nos ter sido roubada. Não tenham ilusão, ela está irremediavelmente perdida. O que vos trago não é conforto, o que vos trago é castigo mas esse castigo não vai devolver o espaço que ficou vazio nos vossos corações. Ele vai custar-vos a vossa alma.

2ª Cena
- Serão testemunhas e juízes, já que aqueles que estão ali, estão amarrados em leis burocráticas que não representam o seu povo. Hoje poderá dizer-se que será o povo a julgar os crimes aqui descritos.

5ª Cena
- Isso não é justiça, é assassinato!

3ª Cena
- Poderemos entrar por aqui, por aqui.
- E as baixas?
- Não temos contacto com o interior, por isso não temos como saber o que vamos encontrar lá dentro?
- Telhado?
- Os acessos, numa primeira análise, estão cobertos.
- Então, as nossas opções são... ou não fazemos nada... o que é inaceitável, ou entramos e arriscamos vidas de pessoas inocentes.
- Precisamos de mais tempo para ver falhas no edifício.
- Não temos mais tempo!

4ª Cena
- Gostava de ter-te de volta. Aquele homem bom e gentil com quem casei.
- Esse homem foi atirado para um abismo sem fim...

2ª Cena
- Que entre o réu!

4ª Cena
-... e não vai voltar.